{"id":16329,"date":"2024-11-25T14:42:06","date_gmt":"2024-11-25T17:42:06","guid":{"rendered":"https:\/\/sabuguinho.com.br\/site\/?p=16329"},"modified":"2024-11-25T14:42:06","modified_gmt":"2024-11-25T17:42:06","slug":"duas-em-cada-10-brasileiras-ja-sofreram-ameaca-de-morte-de-parceiros","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sabuguinho.com.br\/site\/duas-em-cada-10-brasileiras-ja-sofreram-ameaca-de-morte-de-parceiros\/","title":{"rendered":"Duas em cada 10 brasileiras j\u00e1 sofreram amea\u00e7a de morte de parceiros"},"content":{"rendered":"<p>Pesquisa \u00e9 do Instituto Patr\u00edcia Galv\u00e3o e da Consulting do Brasil<\/p>\n<p>Letycia Bond &#8211; Rep\u00f3rter da Ag\u00eancia Brasil<\/p>\n<p>No Brasil, duas em cada dez mulheres (21%) j\u00e1 foram amea\u00e7adas de morte por parceiros atuais ou ex-parceiros rom\u00e2nticos e seis em cada dez conhecem alguma que vivenciou essa situa\u00e7\u00e3o. Em ambos os casos, as mulheres negras (pretas e pardas) aparecem em maior n\u00famero. Os dados s\u00e3o da pesquisa Medo, amea\u00e7a e risco: percep\u00e7\u00f5es e viv\u00eancias das mulheres sobre viol\u00eancia dom\u00e9stica e feminic\u00eddio, realizada pelo Instituto Patr\u00edcia Galv\u00e3o e pela empresa Consulting do Brasil.<br \/>\nO levantamento mostra ainda que seis em cada dez mulheres amea\u00e7adas romperam com o agressor, ap\u00f3s a intimida\u00e7\u00e3o, sendo essa decis\u00e3o mais comum entre as v\u00edtimas negras do que entre as brancas. A pesquisa, divulgado nesta segunda-feira (25), contou com o apoio do Minist\u00e9rio das Mulheres e viabilizado por uma emenda da deputada federal Luiza Erundina (PSOL-SP).<br \/>\nEmbora 44% das v\u00edtimas tenham ficado com muito medo, apenas 30% delas prestaram queixa \u00e0 pol\u00edcia e 17% pediram medida protetiva, mecanismo que pode determinar que o agressor fique longe da v\u00edtima e impedido de ter contato com ela. Esses dados t\u00eam rela\u00e7\u00e3o com outros citados pela pesquisa, o de que duas em cada tr\u00eas mulheres acreditam que os agressores de mulheres permanecem impunes e o de que um quinto apenas acha que acabam na pris\u00e3o.<br \/>\nPara a maioria das brasileiras (60%), a sensa\u00e7\u00e3o de que os agressores n\u00e3o pagam pelo mal que fazem tem rela\u00e7\u00e3o com o aumento dos casos de feminic\u00eddio. No question\u00e1rio online, respondido, em outubro deste ano, por 1.353 mulheres maiores de idade, 42% das participantes concordaram com a afirma\u00e7\u00e3o de que as mulheres amea\u00e7adas de morte imaginam que os agressores jamais v\u00e3o colocar em pr\u00e1tica o que prometem, ou seja, acham que a amea\u00e7a n\u00e3o representa um risco real de serem assassinadas por eles.<br \/>\nAo mesmo tempo, h\u00e1, no pa\u00eds, um contingente de 80% de mulheres avaliando que, embora a rede de atendimento \u00e0s mulheres seja boa, n\u00e3o d\u00e1 conta da demanda. Em rela\u00e7\u00e3o a formas de enfrentamento \u00e0 viol\u00eancia, propor\u00e7\u00e3o id\u00eantica destaca as campanhas de est\u00edmulo a den\u00fancias e as redes sociais como ferramentas poderosas.<br \/>\nUma parcela significativa, tamb\u00e9m de 80%, pensa que nem a Justi\u00e7a, nem as autoridades policiais encaram as amea\u00e7as e den\u00fancias formalizadas com a seriedade devida. Tamb\u00e9m s\u00e3o maioria (90%) as respondentes com a opini\u00e3o de que as ocorr\u00eancias de feminic\u00eddio aumentaram nos \u00faltimos cinco anos.<\/p>\n<p>Duplo trauma<\/p>\n<p>A diarista Zilma Dias perdeu uma sobrinha em 2011. N\u00e3o por causa natural, nem acidente. Camila foi morta, aos 17 anos, pelo ex-companheiro, de quem engravidou e tentava se desvencilhar. Como diversas v\u00edtimas, a jovem duvidava de que as agress\u00f5es atingissem seu ponto m\u00e1ximo. Ambas as mulheres pretas.<br \/>\nQuase todas as respondentes da pesquisa, 89%, atribuem ao ci\u00fame e \u00e0 possessividade do agressor as causas por tr\u00e1s do feminic\u00eddio, quando envolve atuais ou ex-parceiros das v\u00edtimas. Para Zilma, foi o caso de sua sobrinha. Ela disse que ele chegou a tranc\u00e1-la em casa e, como \u00e9 t\u00edpico nos casos de viol\u00eancia dom\u00e9stica, tentou isolar a companheira, privando-a de todo conv\u00edvio, inclusive o com familiares. O objetivo \u00e9 fazer com que as mulheres fiquem sem ter a quem recorrer.<br \/>\n&#8220;Ela dizia que ele era mosca morta&#8221;, compartilha a pernambucana, para sinalizar que a filha de seu irm\u00e3o nunca calculou realmente o risco que corria.<br \/>\nO assassino de Camila mudou-se de cidade onde vivia com ela. Depois de certo tempo, por\u00e9m, ele retornou e ficou \u00e0 espreita da ex-companheira. Quando a jovem passava por um cemit\u00e9rio, matou-a com 12 facadas, diante da filha dos dois, Ra\u00edssa. O homem, que tinha 25 anos, s\u00f3 foi localizado porque cometeu outro crime, de falsidade ideol\u00f3gica. Ent\u00e3o, foi condenado a 13 anos por feminic\u00eddio.<br \/>\nA outra camada que revestiu de vulnerabilidade a vida de Zilma veio de uma desdita que ela mesma experimentou. Ela ficou seis anos sem poder abra\u00e7ar algu\u00e9m que gerou na barriga, mantendo contato somente por telefone. E tamb\u00e9m n\u00e3o resultado de nenhum acidente ou por causa do curso pr\u00f3prio da vida. Foi para se proteger de um agressor que n\u00e3o a matou, mas que assassinou a companheira que veio depois dela.<br \/>\nHoje Zilma entende que a obedi\u00eancia que achava que devia ao parceiro era um valor constru\u00eddo culturalmente, algo incutido por ele na sua mente e que n\u00e3o tinha origem nem mesmo em sua fam\u00edlia. Hoje, diz a trabalhadora dom\u00e9stica, ela compreende que vivia em c\u00e1rcere privado e que racionar comida para si, para n\u00e3o ser punida pelo marido, era um alerta escrito em letras garrafais. Ser proibida de ver os pais e de trabalhar n\u00e3o era normal.<br \/>\nO companheiro praticou contra ela, enquanto estiveram juntos, diversos tipos de viol\u00eancia. Da psicol\u00f3gica \u00e0 patrimonial. Zilma n\u00e3o sabia nem sequer o sexo das beb\u00eas, pois n\u00e3o fez exame pr\u00e9-natal, algo fundamental para verificar se a sa\u00fade da crian\u00e7a est\u00e1 em dia e detectar patologias graves precocemente.<br \/>\n&#8220;Eu n\u00e3o sabia a quem recorrer. Deus me livre chamar a pol\u00edcia. N\u00e3o contava nem \u00e0 minha m\u00e3e que ele me batia. Quase todos os dias, ficava machucada. Gr\u00e1vida, apanhava. Ele chegou a ir ao m\u00e9dico comigo, eu estava toda machucada e j\u00e1 gr\u00e1vida de oito meses da minha primeira filha. Ele, do meu lado, me cutucando e o m\u00e9dico me perguntando &#8216;O que foi aquilo [os hematomas e ferimentos]?&#8217; Ele me proibiu de falar. A\u00ed, eu disse &#8216;Eu ca\u00ed&#8217;. Estava do meu lado me amea\u00e7ando&#8221;, recorda Zilma.<br \/>\nAt\u00e9 terminar o relacionamento, algo que muitas v\u00edtimas temem, por medo de serem mortas, como mostra o relat\u00f3rio do Instituto Patr\u00edcia Galv\u00e3o, Zilma aceitou os pedidos de perd\u00e3o de seu agressor. A tentativa de esquecer os epis\u00f3dios de viol\u00eancia, em um relacionamento abusivo, e substitui-los por lembran\u00e7as mais agrad\u00e1veis &#8211; na maioria das vezes, poucas e do in\u00edcio da rela\u00e7\u00e3o -, inclusive, despertadas intencionalmente pelo agressor \u00e9 outra estrat\u00e9gia muito conhecida. Essa sequ\u00eancia de pedido de perd\u00e3o, com agrados do agressor, recome\u00e7o das agress\u00f5es, piora das agress\u00f5es e agress\u00e3o consumada se chama ciclo de viol\u00eancia e explica por que muitas v\u00edtimas n\u00e3o conseguem quebr\u00e1-lo e abandonar o agressor.<br \/>\nA &#8220;gota d&#8217;\u00e1gua&#8221;, menciona a pernambucana, foi quando ele bateu nela, logo ap\u00f3s aparecer com uma amante no port\u00e3o de casa e ser questionado pela infidelidade. O casal teve duas filhas, sendo que uma morreu aos 15 anos, por um problema card\u00edaco. Na ocasi\u00e3o, uma delas tinha apenas um m\u00eas de idade. Zilma informou a ele que ia embora e seu ent\u00e3o companheiro fez um estardalha\u00e7o, indo \u00e0 casa dos sogros, ajoelhando-se e prometendo que mudaria de comportamento, que jamais ela sofreria agress\u00f5es novamente.<br \/>\nDe mala e cuia, chegou a uma das capitais e voltou a criar a filha porque sua m\u00e3e, que cuidava dela, faleceu. &#8220;A minha esperan\u00e7a \u00e9 que ele fosse mudar, mudar, mas foi s\u00f3 piorando&#8221;, diz.<br \/>\nTentar minar a autoestima de Zilma, outro ponto que se repete nessas hist\u00f3rias, n\u00e3o a abalou, j\u00e1 que estava determinada a partir. &#8220;Dizia que eu n\u00e3o ia conseguir criar minha filha, que eu ia pedir ajuda a ele. Nunca deu um leite a ela. E eu consegui, criei sozinha&#8221;, afirma.<br \/>\nEm 2014, outra sobrinha de Zilma entrou em contato com ela para contar uma novidade. O ex-companheiro da diarista havia matado sua ent\u00e3o parceira e a esquartejado. O caso saiu em jornais locais. Ele foi condenado a cumprir 25 anos de pris\u00e3o.<\/p>\n<p>Como encontrar informa\u00e7\u00f5es e pedir ajuda<\/p>\n<p>A vers\u00e3o completa da pesquisa pode ser lida no site do Instituto Patr\u00edcia Galv\u00e3o, onde tamb\u00e9m \u00e9 poss\u00edvel encontrar dados sobre os diversos tipos de viol\u00eancia.<br \/>\nH\u00e1, ainda, diversas formas de pedir socorro, caso seja necess\u00e1rio. Entre elas, o telefone 180, espec\u00edfico para atender v\u00edtimas de viol\u00eancia dom\u00e9stica, as delegacias especializadas no atendimento \u00e0 mulher e a Casa da Mulher Brasileira, que tem dez unidades espalhadas pelo pa\u00eds (Campo Grande; Fortaleza; Ceil\u00e2ndia, no Distrito Federal; Curitiba; S\u00e3o Lu\u00eds; Boa Vista; S\u00e3o Paulo; Salvador; Teresina; e Ananindeua, no Par\u00e1.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pesquisa \u00e9 do Instituto Patr\u00edcia Galv\u00e3o e da Consulting do Brasil Letycia Bond &#8211; Rep\u00f3rter da Ag\u00eancia Brasil No Brasil, duas em cada dez mulheres (21%) j\u00e1 foram amea\u00e7adas de morte por parceiros atuais ou ex-parceiros rom\u00e2nticos e seis em cada dez conhecem alguma que vivenciou essa situa\u00e7\u00e3o. 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