Não é uma “gripezinha”, senhor presidente

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Marcelo José Ortega, advogado, especialista em direito corporativo e compliance, direito administrativo, político e eleitoral (*Publicado originariamente no Jornal “O Estado de São Paulo” no dia 25/03/2020)

Com números de mortos atualizados a cada momento através de informações oficiais de governos de dezenas de países e com cobertura intensa dos meios de comunicação social de massa todas as línguas e nações, a pandemia do coronavirus ganhou corpo e se transformou em uma das mais assustadoras ameaças à integridade da humanidade.
O potencial destruidor da pandemia está movimentando as estruturas sociais, políticas e econômicas de países inteiros do globo terrestre, alterando o modo de vida e impactando nas relações humanas, nos negócios e criando expectativas negativas de futuro. Afinal de contas, considerando o impacto na economia, nas relações de trabalho e nas atividades comerciais, como vamos nos recuperar da crise avassaladora que se avizinha?
Uma gripezinha, como foi minimizada a gigantesca pandemia pelo Presidente da República, Jair Messias Bolsonaro, não tem o potencial para pôr em colapso todo o sistema de saúde da Itália, Espanha e França e criar um ambiente de medo e insegurança em toda a Europa. Uma gripezinha não teria força suficiente a ponto de equipes médicas serem obrigadas a escolher quem vai morrer e quem vai viver por falta de equipamentos de respiração.
Os ministros do Gabinete de Segurança Institucional, Augusto Heleno, e de Minas e Energia, Bento Albuquerque, muito próximos do presidente, foram infectados pelo coronavirus e estão em isolamento. Além deles, outros assessores que convivem diariamente com Bolsonaro e desempenham funções na Presidência, também foram contaminados pelo coronavirus que chegou muito perto do presidente e bateu em sua porta para alertá-lo da grande responsabilidade que tem no enfrentamento da crise.
A pandemia colocou nosso país de joelhos, desequilibrou as finanças públicas da União, dos estados e municípios e motivou o Governo Federal a decretar um inédito estado de calamidade pública que autoriza maior aporte de recursos para a área saúde e coloca o orçamento federal em função dos gastos de prevenção, contenção e combate à pandemia.
A imprevisão passou a dominar as políticas publicas em outros setores e reduzirá o crescimento econômico que estava engatinhando após reformas e decisões da equipe econômica do Governo Federal. Não haverá recursos para infra-estrutura nas diversas regiões do país e todos os esforços para ajustar a economia em direção ao desenvolvimento sustentável sofreram uma baixa; um ano quase perdido. Uma gripezinha não teria tanta força.
Alem da crise interna provocada pelo coronavirus, os negócios do mundo todo tiveram uma parada repentina, as bolsas de valores entraram em colapso, o que forçou os bancos centrais a tomarem decisões emergenciais para enfrentarem uma crise financeira, cujos efeitos ainda não conhecemos. Com todos esses impactos, especialistas temem que a pandemia do coronavirus possa arrastar a economia mundial para uma depressão. Não seria uma gripezinha capaz de tanto estrago.
O diagnostico errado, a interpretação equivocada e a tentativa de abreviar uma pandemia com potencial destruidor, que avança no Brasil atingindo todos os estados da federação, mostram o presidente Bolsonaro distante da realidade e isolado do mundo. Como chefe de Poder e de Estado, líder maior da nação brasileira, ele tem a obrigação de ser sensato, ponderado e conduzir a crise com serenidade, acompanhando dados técnicos oficiais e não por uma interpretação política errônea da crítica situação.
Nos estados, governadores tomaram a frente da crise e estão se destacando por tomarem decisões rápidas. Estádios de futebol passaram a abrigar hospitais de campanha, a dura determinação para o fechamento temporário do comercio, a suspensão dos serviços de órgãos públicos e outras ações preventivas são algumas das atitudes que os entes da federação estão tomando para enfrentar a pandemia. Os prefeitos já editaram decretos no mesmo sentido que os estados. Parece não haver sintonia com o Governo Federal.
A nossa República está com medo, insegura e vulnerável e espera do seu líder atitudes de segurança, de confiança e de unidade no enfrentamento desse grande desafio global. O surto do coronavirus pode estar apenas começando e não há ambiente para piadas, brincadeiras e frases de efeito. As pesquisas apontam a descrença dos brasileiros na liderança gerencial do presidente no combate à pandemia do coronavirus. Talvez porque não sentem firmeza nas atitudes e nos posicionamentos de Bolsonaro na gestão da crise.
O Ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, médico ponderado e sereno, tem feito um trabalho extraordinário no combate ao coronavirus e aliviado o presidente do grande desgaste popular provocado por suas declarações infelizes. O Ministro, do mesmo modo que todo brasileiro, sabe que não é apenas uma gripezinha, Senhor Presidente.

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